Rede de cidades criativas da UNESCO
Desde 2024, a Política Nacional de Economia Criativa, o Brasil Criativo, fomenta segmentos como audiovisual, design, moda e artesanato. A iniciativa do Ministério da Cultura busca integrar a inovação à valorização da diversidade cultural brasileira, transformando o potencial criativo nacional em um motor de geração de renda e fortalecimento da identidade nacional no cenário global.
É o mesmo caminho proposto pela Rede de Cidades Criativas da UNESCO, que estimula políticas públicas, estratégias, planos e iniciativas voltadas para a cultura e a criatividade em nível municipal, com o objetivo de promover a cultura em oito áreas: arquitetura, gastronomia, design, artesanato e artes populares, música, cinema, artes midiáticas e literatura.
As cidades participantes da Rede se comprometem a compartilhar suas melhores práticas e desenvolver parcerias envolvendo a sociedade civil, o poder público e privado para fortalecer essas atividades, expandir as oportunidades para os profissionais do setor, melhorar o acesso e a participação na vida cultural e integrar totalmente a cultura e a criatividade nos planos de desenvolvimento sustentável.
Há muitas oportunidades para que mais cidades no Brasil se juntem à Rede de Cidades Criativas da Unesco, como mostram os exemplos dos 15 municípios já reconhecidos pela entidade:
Belém (PA)
Com grande diversidade de produtos alimentícios locais, Belém se destaca pela gastronomia, setor que emprega 43 mil pessoas. A cidade tem programas focados na tecnologia e inovação alimentar, bem como diversos laboratórios de pesquisa dedicados a sistemas agroalimentares sustentáveis.
Belo Horizonte (MG)
Belo Horizonte possui um amplo calendário de eventos dedicados aos trabalhadores do setor criativo. Reconhecida internacionalmente como um destino gastronômico, a cidade possui uma gastronomia talentosa, apoiada por iniciativas e políticas locais e privadas que visam preservar a culinária tradicional, buscando, ao mesmo tempo, a evolução e a inovação dentro do setor.
Brasília (DF)
Classificada como a cidade mais criativa do país, Brasília abriga dezenas de laboratórios e incubadoras de startups com o objetivo de desenvolver a economia criativa nas áreas de design, moda, artesanato e grafite e também sedia vários eventos importantes do setor. Impulsionados pelo potencial do design – seja design de serviços, design thinking ou design de destinos –, esses setores colaboram em soluções para promover o desenvolvimento social e criativo.
Campina Grande (PB)
Reconhecida na categoria Artes Midiáticas, Campina Grande foi pioneira na criação de um parque tecnológico e de um curso na área, até hoje o único exemplo no país. Com um forte polo de criatividade e inovação, a cidade tem potencial reconhecido para o desenvolvimento cultural e criativo. Sede do maior São João do mundo, Campo Grande já comprovou sua capacidade de organizar eventos de grande escala, que conseguem promover a música, a dança, o teatro, o artesanato, a gastronomia e as artes multimídia.
Curitiba (PR)
Reconhecendo o design como agente de transformação urbana, Curitiba realizou investimentos estratégicos nas indústrias criativas e construiu um dos cenários de design mais dinâmicos e modernos do país. A cidade tornou-se uma referência nacional e internacional em inovação e cultura urbana, buscando melhorar a qualidade de vida de seus cidadãos por meio de diversas iniciativas de economia criativa.
Florianópolis (SC)
Formular e implementar políticas públicas para o desenvolvimento da economia criativa local, com foco na gastronomia, é o foco atual de Florianópolis. A criação do Observatório da Gastronomia e do Laboratório de Inovação Cultural visam ampliar a circulação de informações e desenvolver projetos de cooperação e intercâmbio técnico no setor, atraindo investimentos e recursos humanos qualificados.
Fortaleza (CE)
Com 914 empresas atuando no setor criativo, Fortaleza abriga 23% dos estabelecimentos de design do nordeste brasileiro e sedia diversos eventos do setor, como a Ceará Design Week e a Mais Design Ceará. As políticas públicas desempenham um papel fundamental na preservação do setor e na formulação de políticas culturais relacionadas ao design.
João Pessoa (PB)
João Pessoa é o principal centro de comércio e produção artesanal da Paraíba, incluindo cerâmica, bordados e crochê, e abriga a principal feira regional do setor. O artesanato é praticado por 5.000 famílias, que vivem principalmente nas áreas rurais ao redor da cidade. Como Cidade Criativa do Artesanato e da Arte Popular, o município promove a transferência de conhecimento e processos de capacitação para as novas gerações de artesãos, com o objetivo de preservar e promover a identidade cultural local.
Paraty (RJ)
Uma gastronomia que inclui a agricultura. Essa é a visão de Paraty,que busca desenvolver processos ambientalmente sustentáveis baseados na biodiversidade e no fomento à cooperação entre chefs e agricultores, incentivando a agroecologia. Com 78% do seu território protegido ambientalmente, Paraty adotou diversas regulamentações para cuidar do meio ambiente e está criando certificações de Gastronomia Sustentável e Passaporte Verde, com o propósito de desenvolver um turismo mais sustentável.
Penedo (AL)
Com arquitetura cinematográfica e centro histórico declarado patrimônio nacional pelo IPHAN, Penedo atrai muitos turistas para seus festivais de música, literatura e cinema, com destaque para o último. A sétima arte marcou momentos importantes na história cultural da cidade, que tem Escola de Cinema, Laboratório de Inovação e compromisso com a cooperação nacional e internacional, além de um acordo de colaboração com Santos, a única outra Cidade do Cinema na América Latina até o momento.
Recife (PE)
A música é uma das identidades culturais fortes de Recife, com expressões únicas como o frevo, característico de seu carnaval de rua, o maracatu, o Manguebeat, movimento reconhecido internacionalmente, ou o rock. A cidade é uma das mais antigas do país e tem uma longa história de inovação musical, movimentando uma ampla rede de atores e serviços culturais em torno do setor e criando um ambiente favorável para negócios no ramo.
Rio de Janeiro (RJ)
A literatura é o potencial criativo escolhido para o desenvolvimento sociocultural do Rio de Janeiro. Programas de incentivo à leitura, projetos de pacificação com foco na literatura e o reconhecimento de artistas locais são parte das ações que buscam combater desigualdades e melhorar a qualidade de vida na cidade. Com incentivo à criação de bibliotecas e a formação de mediadores culturais, o Rio de Janeiro pretende aproveitar o potencial livreiro da cidade, que responde por 14% das vendas nacionais de livros e abriga 146 livrarias.
Salvador (BA)
Salvador vive ao ritmo da música. A cidade que viu nascer o axé e o tropicalismo reúne 2 milhões de pessoas todo ano ao longo de uma semana de carnaval de rua, reconhecido pelo Guinness World Records como o maior carnaval de rua com apresentações musicais realizadas por trios elétricos. O setor musical está no centro dos planos de desenvolvimento econômico da cidade, com a promoção da indústria da música local em escala internacional e programas de capacitação que visam tornar a criatividade a base de um desenvolvimento urbano inclusivo e sustentável.
Santos (SP)
O rico legado cinematográfico de Santos tem sua origem no início do século XX, com a criação do primeiro cineclube estabelecido no Brasil. A partir daí, a cidade tem se dedicado a manter o cinema como um motor da economia local. Em um período de 5 anos, 300 produções foram filmadas na cidade, que tem 21 produtoras e coletivos cinematográficos que estão expandindo suas atividades internacionalmente. Ao mesmo tempo, programas da prefeitura promovem acesso e participação para inspirar jovens a seguirem carreira no setor.
São Paulo (SP)
O cinema é fundamental para a identidade cultural e a economia criativa de São Paulo, gerando mais de 52.000 empregos na cidade, que concentra aproximadamente 40% das produtoras cinematográficas nacionais, quase 6.000 empresas audiovisuais, 32.000 m² de estúdios e 447 salas de cinema. Uma potência que viu as primeiras produções cinematográficas na década de 20 e cujas políticas públicas hoje incentivam o fortalecimento da produção independente, a cooperação internacional e a descentralização do acesso.
Mesmo sem estar na Rede da UNESCO, diversas cidades no país têm iniciativas que promovem o desenvolvimento econômico local por meio da economia criativa. Um bom exemplo é a cidade de Eusébio, no Ceará, primeiro lugar do ranking nacional na geração de empregos no setor.
A liderança de Eusébio se deve à adoção consistente de políticas públicas voltadas para a economia criativa, que é hoje o principal pilar do desenvolvimento local.
O que faz uma cidade ser criativa?
Charles Landry diz que “muitas cidades têm projetos inovadores, mas isso não significa que elas são criativas”. Para o criador do conceito, não há uma fórmula, mas sim princípios que podem ajudar na busca de soluções. E o principal deles é, sem dúvida, a criatividade, essencial para lidar com problemas complexos como as demandas urbanas.
Landry destaca que a criatividade precisa ser um exercício coletivo, até pela característica de diversidade das cidades, constituídas de universos heterogêneos e relações complexas entre eles.
As cidades criativas estruturam um ambiente que valoriza essa característica, proporcionando um espaço onde as diferentes identidades se cruzam e prosperam. Elas são centros dinâmicos, onde a criatividade e a cultura contribuem para impulsionar o desenvolvimento urbano.
A economia criativa é um dos pilares desse desenvolvimento, com iniciativas que buscam atender à demanda por soluções inovadoras em diversas áreas. Mas com o aumento dos investimentos, cresce também o risco da perda de identidade local.
Por isso, é essencial que o poder público, o setor privado e a sociedade civil se unam para fortalecer o planejamento de soluções a partir da capacidade criativa das pessoas, ao mesmo tempo em que estimulam a participação comunitária e garantem um equilíbrio entre desenvolvimento e preservação cultural.
Como desenvolver a criatividade?
Por muito tempo se acreditou que a criatividade era um dom, um talento natural, mas hoje se sabe que ela é uma competência que pode ser desenvolvida por meio de diversas técnicas.
Para fomentar a criatividade, um primeiro passo essencial é a já mencionada convivência com a diversidade. A exposição a diferentes experiências e conhecimentos aumenta o repertório de informações e gera novas combinações de ideias.
Como o pensamento criativo é justamente a capacidade de enxergar coisas de um ângulo diferente e encontrar soluções originais, criar novas conexões mentais e fugir de estereótipos é parte importante do processo.
Além de desafiar ideias pré-concebidas, uma etapa importante do processo criativo é sair da zona de conforto, abrindo a mente para a chegada de novas ideias.
Existem várias formas de fazer isso, e abaixo apresentamos algumas:
Exercitar a mente
A prática é importante para estimular a criatividade. Realizar tarefas rotineiras de uma forma diferente da usual, experimentar novos caminhos, fazer exercícios mentais como jogos de lógica, começar um novo hobby, são táticas para manter a mente sempre ativa - e criativa!
Cultivar a curiosidade
Procure aprender algo novo todos os dias. Abra a mente para novas experiências, leia, estude, explore temas não comuns ao seu dia a dia ou área de especialização. Mesmo um passeio ao ar livre pode trazer novas ideias e perspectivas. Tente exercitar um novo olhar sobre a cidade, por exemplo, observando muros, pinturas, construções ou qualquer outra coisa que encante sua mente.
Valorizar o ócio
Recarregar as energias é importante não só para o corpo, mas também para a mente. O cérebro precisa de descanso. Procure ter sempre tempo livre entre tarefas e maneiras de relaxar e desconectar a mente. A divagação mental também faz parte do processo criativo e permite o surgimento de novas ideias, mesmo que a intenção da pausa não seja essa.
Praticar os 5 porquês
Desenvolvido pela Toyota para controle de qualidade, o método dos 5 porquês consiste em questionar repetidamente por que um determinado problema ocorreu. A cada resposta, formula-se um novo “por quê”, geralmente até 5 vezes, até a descoberta da origem do problema.
A técnica estimula o pensamento crítico e busca evitar soluções superficiais, permitindo não somente aprofundar a compreensão do problema, como também prevenir que ele aconteça novamente.
Fazer benchmarking
O benchmarking, ou pesquisa de boas práticas, amplia referências, identifica tendências e busca inspiração em outros pensamentos e soluções criativas. É muito usado por empresas na análise de concorrentes, mas também pode ser feito com pessoas criativas/criadores de conteúdo, departamentos internos e empresas de ramos diferentes, buscando uma colaboração estratégica.
Realizar sessões de brainstorming
Já para incentivar a colaboração entre as pessoas, a técnica mais usada é o brainstorming, que promove a geração de ideias “sem filtro” para buscar novas formas de resolver problemas.
É importante não se prender à viabilidade das ideias em um primeiro momento. Todas precisam ser anotadas, e é essencial que as pessoas também colaborem com as ideias dos outros.
Um facilitador que garanta um ambiente colaborativo e incentive a participação de todos e mantenha o foco no objetivo do brainstorming é essencial nesse processo.
Em resumo, a convivência com pensamentos diferentes, a oportunidade de encontros e as interações pessoais são fundamentais para o nascimento da criatividade e da inovação, assim como são a base para a construção de cidades criativas.
As cidades criativas têm potencial para redefinir nosso relacionamento com o ambiente urbano e transformar a forma como vivemos, revelando caminhos para um futuro mais sustentável e inclusivo.
Como a vocação criativa da sua cidade poderia se beneficiar desse movimento? Já existem projetos que, bem desenvolvidos, poderiam permitir que ela fosse reconhecida como uma cidade criativa pela UNESCO?